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sábado, 31 de março de 2012


RELIGIÃO E CIÊNCIA

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Ciência e religião são retratadas em harmonia por Louis Comfort Tiffany no vitral "Educação" (1890).
Há diversas maneiras de se pensar como se dá a relação entre religião e ciência. A história da humanidade mostra que as visões acerca da natureza da ciência e da natureza da religião mudam com o tempo, de acordo com as concepções filosóficas e contextos políticos, sociais, econômicos, etc.

 Historicamente, a ciência tem tido uma relação complexa com a religião; doutrinas religiosas por vezes influenciaram o desenvolvimento científico, enquanto o conhecimento científico tem surtido efeitos sobre crenças religiosas. A visão do ser humano sobre os deuses influencia a visão dele sobre natureza e vice-versa, já que o ser humano é um ser integral.Um ponto de vista descrito por Stephen Jay Gould como magistérios não-sobrepostos (ou não interferentes) - em inglês Non-Overlapping Magisteria (NOMA) - é que a ciência e a religião lidam com aspectos fundamentalmente distintos da experiência humana, e desta forma, quando cada uma delas permanece em seu próprio domínio, elas coexistem de maneira pacífica. [3]. Outra visão conhecida como a tese do conflito, afirma que a religião e a ciência inevitavelmente competem pela autoridade sobre a natureza da realidade, de forma que a religião está gradualmente perdendo a guerra contra a ciência ao passo que as explicações científicas tornam-se mais poderosas e gerais. [4] Esta visão foi popularizada no século XIX por John William Draper e Andrew Dickson White.
Ciências e Religiões: construções humanas

A religião e a ciência são construções humanas, que variam com o tempo. Dentro de qualquer religião há uma variedade de posicionamentos, ramificações, segundo as diversas interpretações que fazem das escrituras que consideram sagradas, inspiradas por deus ou deuses, e geralmente tidas como revelações diretas deste(s) ao homem. Há uma multiplicidade muito grande de pareceres teológicos dentro de cada religião, acompanhando assim a variedade de formas com que o ser humano vê as questões que envolvem os deuses e o homem. Assim também na ciência, há diversas visões sobre sua epistemologia, ou seja, há concepções distintas sobre como o conhecimento científico é gerado e sobre a natureza e autoridade da ciência. Alguns cientistas entendem a ciência como instrumento para se achegar a Verdade Absoluta, outros a veêm limitada e restrita às limitações racionais e experimentais humanas. Alguns crêem que é possível verificar algo, outros entendem que só é possível excluir possibilidades e outros acham que as infinidades de possibilidades e conjecturas da mente, as formas de pensar humanas não esgotam todas as variáveis do problema, que os experimentos criados são limitados pelas pré-suposições de como é a natureza e que as próprias percepções, medições e sensibilidade aos fatos são limitados. Assim, há uma grande variedade de concepções epistemológicas da ciência e da religião (de como os conhecimentos religiosos e científicos são adquiridos) e das relações entre a ciência e a religião (historicamente e na atualidade), variando do antagonismo e separação até a colaboração próxima. [5], [6], [7], [8].
[editar]Relações entre Ciências e Religiões ao longo da história

As relações entre ciência e religião mudam ao longo da história e envolvem uma gama muito grande e complexa de aspectos, como politicos, sociais, econômicos e aqueles que envolvem as relações de autoridade e poder, visões epistemológicas das épocas, forma das práticas científicas em cada época, relação ciência e sociedade, choques entre culturas distintas, etc[9],[10].
[editar]na Antiguidade
Em todos os tempos, o ser humano sempre buscou conhecer o sobrenatural - os deuses - e a natureza. Na Antiguidade, havia diversas formas de buscar conhecer a natureza, mas algumas delas estavam vinculadas a cultos de natureza espiritual, cultos a divindades e rituais místicos, e mitologia[11]. A idolatria babilônica, suméria, egípcia e posteriormente a grega consistiam em adorar coisas da natureza, invocando-as como deuses para que elas provessem o que necessitavam ou desejavam. Assim, a adoração ao deus sol, por exemplo, consistia em invocação de espíritos, acompanhada de oferendas para que se obtivesse a condição climática favorável para uma colheita aprazível. Na idolatria, a manifestação de espíritos sobre aquele elemento da natureza propiciava a benção desejada pelo adorador. Trata-se de uma visão animista, onde as coisas da natureza ganham "vida" através da invocação da divindade e manifestação de espíritos [12]. O conhecimento, na Antiguidade, desenvolveu-se em função da agricultura, que era administrada por sacerdotes que efetuavam os cultos aos ídolos, que eram, muitas vezes elementos da natureza. Observar resultados da natureza estava, portanto, muito vinculado à prática da idolatria. Essa forma de conhecer a natureza era associada a invocação de espíritos, com exceção da civilização hebréia, a única que adorava um único deus criador e confiava nele para suas provisões, não adorando as coisas criadas[13].
Ao lado da idolatria grega, surgiram pensadores na Antiguidade grega que queriam estudar a natureza sem evocar espíritos. Esses buscavam se ater à razão como principal instrumento para o conhecimento. A dialética e o discurso ganharam muita força nessa época onde as verdades instituídas eram ganhas com base no raciocínio lógico, indução, dedução e na capacidade de persuasão do estudioso. Diversas escolas racionalistas gregas surgiram, das quais as mais famosas são atribuídas a Platão e a Aristóteles.O racionalismo é um movimento filosófico que crê que a razão é instrumento para se achegar a Verdade Absoluta. Ganhou força com as visões platônicas (Platão) de que o mundo das idéias seria um mundo perfeito onde encontra-se a realidade [14],[15].
[editar]na Idade Média
Durante toda a Idade Média, houve uma luta pelo poder entre a Igreja Católica e os pensadores da natureza. A Igreja queria impor que ela era a instituição que definiria o que é verdade sobre todos os assuntos, inclusive sobre a natureza. Essa atitude impedia a liberdade investigativa da natureza. Inicialmente o conhecimento grego era banido e a partir do século XII, com Thomas de Aquino e outros "pais da Igreja", algumas visões filosóficas da natureza dos gregos foram incorporadas na Teologia Católica e impostas à sociedade. Dessa forma, a Igreja Católica concentrava-se em si mesma a autoridade para assuntos religiosos e da natureza, autoridade a qual todos deviam se submeter, sob ameaças de terríveis punições[16]. No século XVI, Galileu Galilei (1564-1642) lutava pela autoridade da ciência: “à ciência cabe dizer como vai o céu, e à religião como se vai ao céu”. Galileu foi pressionado a se retratar diante do tribunal da Inquisição, dizendo que era falsa a idéia de que a Terra girava em torno do seu eixo e em torno do sol. A postura impositiva da Igreja, o pensamento de que ela deveria ser quem determina a Verdade, também acerca da natureza foi a causa de muitas polêmicas no início da era moderna. A filosofia da natureza passou a lutar para dizer à sociedade que ela poderia estudar a natureza e ter autoridade para emitir pareceres[17].
[editar]na Idade Moderna
Com a modernidade, a filosofia da natureza desenvolveu métodos próprios de investigação e se tornou institucionalmente laica, isto é, independente da Igreja. A observação e a experimentação foram sendo entendidas como sendo muito importantes para o conhecimento da natureza. Ao longo do tempo a visão sobre como realizar o processo de se conhecer a natureza (Filosofia da Natureza) foi se modificando. René Descartes (1596-1650), um dos filósofos mecanicistas propunha a "realidade dualística", ou seja, a existência de dois mundos separados "o reino de extensão material, de caráter essencialmente geométrico e mecânico" e o "reino da substância do pensamento, que não possui extensão" [16]. Dessa forma, ele divorciou a mente do corpo pela crença racionalista. O racionalismo é uma corrente filosófica que enfatiza o a priori, as ideías como instrumento para se achegar a Verdade. Para Descartes, o corpo era uma máquina. Na visão mecanicista, a física da máquina ou das invenções humanas é a mesma que a física da natureza. Isso propiciou a visão reducionista, onde o objeto analisado é uma amostra reduzida do mundo. Mais tarde, o reducionismo vai influenciar a ciência moderna, onde o laboratório, a reprodução da natureza no laboratório, é visto como uma amostra reduzida do mundo, e por isso ganha o status de poder ser visto como se fosse a própria natureza. No entanto, sabemos que não é a natureza, mas uma tentativa humana de reproduzí-la[18].
Gradativamente ia se rompendo a antiga relação entre a filosofia e a filosofia da natureza, que mais tarde, vem a se chamar ciência. Isso ocorreu quando as ciências individuais (os diversos ramos do saber) passaram a ter pretensão de um conhecimento independente e metodologicamente garantido. Nessa ocasião, a filosofia e a ciência passaram a concorrer. Essa atitude ocorreu no século XIX e foi fundamentada por uma determinada filosofia, ou modo de entender o mundo, designada positivismo[14].
O positivismo é uma visão filosófica baseada no indutivismo, no verificacionismo e no empirismo. O empirismo é uma doutrina filosófica que entende o experimento como instrumento para se achegar a Verdade absoluta (de forma progressiva). Os positivistas não isentavam o Método Científico das suas limitações em medidas, mas submestimaram a influência da visão de mundo do cientista e as concepções a priori que ele tem a respeito de um objeto de estudo da natureza. Também superestimavam o experimento (aliado à razão a priori que concebe o experimento e o aparato experimental) como instrumentos para verificar algo, provar algo. além disso, tinham a crença de que a ciência sempre progride, o que a história da ciência tem provado ser errônea, pela idas e vindas de concepções científicas ao longo do tempo. Alguns exemplos disso são o atomismo e a concepção ondulatória da luz[7]. Alguns dos defensores do positivismo foram Francis Bacon(1561-1626),John Locke (1632-1677), George Berkeley (1685-1753), David Hume (1711-1776) e Auguste Comte (1798-1856).O empirismo reduz tudo à experiência, sem se interrogar pelas formas a priori, ou seja, as pré-suposições e a metafísica que a envolve[18]. O verificacionismo é a crença de que é possível verificar ou provar algo com certeza absoluta (os empiristas acham que isso se dá mediante o experimento, com base na observação; os racionalistas acham que isso se dá por meio da razão). O indutivismo é uma posição filosófica que vê como válido e verdadeiro o exercício racional da generalização de uma afirmação sobre algo específico (no positivismo essa afirmação tem fundamento na observação). Dessa forma, a partir de progressivas observações se conclui uma lei ou princípio geral.[19].
[editar]A concepção de ciência positivista e religiosa de Comte
O sociólogo ateu Augusto Comte (1798-1856) pretendeu formar uma nova "ciência da sociedade" através do positivismo. A ciência do ponto de vista positivista é uma "ciência exata, metodicamente controlada (pelo método científico), parte de experimentos e observações empíricas, alcançando assim, passo a passo, o conhecimento dos princípios universais e superiores ou "fatos", tal como o conceito de gravitação de Newton. As ciências naturais assumiram esse caráter pouco a pouco"[20]. O que antes era entendido como "fatos", verdades absolutas, devido essa postura dogmática, chamada pelo filósofo Hilton Japiassu de "puritanismo racionalista"(prega o primado do racional ou científico sobre outras formas do saber, pela excessiva confiança na razão como configuradora do instrumento que leva a tentativa humana de buscar a verdade absoluta[21]) nega hoje entendemos de forma diferente.
Comte tinha em vista realizar uma dominação coletiva unindo as forças que lideravam a sociedade (banqueiros e capitalistas) ao círculo de cientistas positivistas, com vistas de que a autoridade da ciência substituisse a autoridade do clero e da nobreza. Augusto Comte defendia que o conhecimento humano individual (os diversos ramos do saber) passa por três estágios: o religioso, o filosófico e o científico. Assim, Comte pensava que havia 3 épocas históricas: Na época religiosa, o homem explica os fenômenos recorrendo a causas sobrenaturais; na época filosófica, explica recorrendo a princípios racionais; na época científica, explica por meio das leis naturais, as quais explicam por si só os fenômenos Dessa forma ele dava autoridade à ciência para falar sobre a natureza, vencendo o dogmatismo religioso, que consistia na tentativa da Igreja de centralizar em si mesma a autoridade para falar sobre a natureza [14].
O desejo de Comte era fundar uma "espécie de religião da humanidade" onde o amor pela humanidade seria a "natureza suprema", assim pregava o altruísmo. O positivismo de Comte tinha os seguintes pilares: 1)o real pode ser desvinculado do imaginário; 2)o útil deve ser incentivado, o que tem aplicação para aprimoramento da vida e não o "ocioso"; 3)diante das decisões o certo é aquilo que tem "harmonia lógica"; 4) a crença de que existe o exato e que esse deve ser preferido diante do incerto; 5)o construtivo (a idéia de progresso) deve ser escolhida em detrimento da postura "crítica-negativa"; e 6)o relativo (para frear a imposição e pretensão dogmáticade absolutez da teologia e da metafísica)[14].
Augusto Comte defendia que o conhecimento humano individual (os diversos ramos do saber) passa por três estágios: o religioso, o filosófico e o científico. Na época religiosa, o homem explica os fenômenos recorrendo a causas sobrenaturais; na época filosófica, explica recorrendo a princípios racionais; na época científica, explica por meio das leis naturais, as quais explicam por si só os fenômenos[14].
[editar]Da Idade Moderna à Contemporânea
Grandes revoluções no pensamento científico, principalmente na Física, com a Física Quântica e a Relatividade de Einstein, incentivaram maiores estudos de história e epistemologia das ciências no século XX. Gaston Bachelard, Karl Popper, Thomas Kuhn, Paul Feyerabend, Emri Lakatos e outros cientistas, filósofos e historiadores da ciência tentaram descrever o processo de se fazer ciência com base nos estudos de história da ciência e da lógica. Eles perceberam, pelo desenvolvimento científico que ocorreu na passagem do século XIX para o XX, que as pressuposições positivistas acerca da ciência, como a confiança exacerbada na observação e também nos pré-supostos lógicos que levavam a criação dos experimentos, eram pontos que deveriam ser reformados na epistemologia na ciência [22]. Esses filósofos da ciência levantaram a presença de diversos fatores subjetivos na forma de pensar dos cientistas que acabaram por propiciar inclusive os enganos a respeito da natureza. Assim, a imaginação, a visão da pessoa sobre deus ou os deuses e a origem do Universo, seu contexto social, politico, suas premissas sobre eficácias de dispositivos e aparatos experimentais (e de que esses reproduzem com fidelidade a natureza, suas pré-concepções ou crenças acerca do comportamento da natureza, são elementos que devem ser considerados ao analisar-se o processo de fazer ciência - mesmo que ao rigor da definição moderna de ciência estes devam ser excluídos do referido processo[23]. O método científico configura-se atualmente como um filtro para minimizar ao máximo tais influências de origem pessoal dentro da ciência ao exigir coerência constante, a mais simples e abrangente, com o mundo natural.
Atualmente sabemos que o experimento laboratorial é uma tentantiva de reprodução do que acontece na natureza, expondo parte da natureza mas não a natureza em sua totalidade. [24]. Dessa forma, simplificamos a natureza para que possamos estudá-la, pois se não conseguimos dar conta do número imenso de variáveis que envolvem um sistema natural ou real simultaneamente, temos que fazê-lo por partes. A mensuração é um processo limitado de um sistema escolhido segundo hipóteses e pré-suposições de natureza teórica, que pode ser refinado até o limite da execução prática, não encerrando, entretanto, precisão absoluta. Nestes termos, a descrição completa da natureza em seus mínimos detalhes não é algo alcançavel mesmo para a ciência moderna: a ciência constrói modelos da natureza, e a compreende através destes modelos. Estes podem ser refinados até o limite imposto por condições práticas, mas por mais que se trabalhe o mesmo, um modelo da natureza não é a natureza em si. Neste aspecto a historia da ciência tem mostrado que produzir conhecimento válido a cerca da natureza é um grande desafio para a humanidade.



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