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quarta-feira, 22 de maio de 2013

O SAGRADO NAS NOVAS EXPRESSÕES RELIGUIOSAS

A PROCURA DO SAGRADO NAS NOVAS EXPRESSÕES RELIGIOSAS


Leomar Brustolin*


A aula de Ensino Religioso é o espaço de troca sobre o relacionamento com o sagrado. As crianças e os adolescentes acompanham a religiosidade dos pais. Os jovens, porém, procuram se emancipar por caminhos novos. 

As últimas décadas têm trazido novas expressões na relação com o sagrado. São os chamados novos movimentos religiosos. O termo “novo” indica temporalidade – são mais recentes – e qualidade - pretendem inovar a prática religiosa por meio da emoção e da experiência comunitária. Sociologicamente, resultam da reação à modernidade, que propôs utopias dissociadas da religião. 

Novas respostas

Os movimentos religiosos, Igrejas e seitas, no caos da cidade, são espaços de reconhecimento diante da exclusão social e da solidão. São alternativas às velhas respostas das tradições religiosas para perguntas novas de contextos recentes. 

Ressignificam a dor, a violência, a pobreza e a falta de perspectiva de vida. Propõem cura, libertação, harmonia conjugal e familiar e sucesso financeiro. Oferecem às pessoas esquecidas pelo sistema ou angustiadas pela condição existencial o acesso à fonte da felicidade que remete à transcendência, ao sagrado e ao divino. 

O milagre, o mágico e o emocional são fundamentais nestes novos movimentos. Existe acolhida, cordialidade e reconhecimento pessoal, por meio de testemunhos e partilhas de experiências. O papel de Deus é somente ajudar as pessoas na luta da vida. É uma alternativa ante a religião intelectualizada com doutrinas e teologias formais.   

Há movimentos dualistas que reagem contra a modernidade, pregam uma moral sexual rígida e opõem-se aos cultos considerados pagãos: feitiços, idolatrias, superstições. Organizam a vida social dentro do movimento e evitam contato com idéias diferentes. Outros absorvem elementos da modernidade e se identificam com práticas da Nova Era, enquanto pretendem valorizar a experiência do sujeito mais do que delimitar um objeto para a fé. 

Tendências diversas

É difícil classificar os novos movimentos religiosos, pela complexidade de elementos que se entrecruzam. É possível identificar alguns de base cristã, com acento evangélico e pentecostal. São grupos fundamentalistas, católicos ou protestantes. 

Enfatizam a relação pessoal com o Espírito Santo e a mudança de vida, porém não acolhem a diferença. São críticos em relação à prática religiosa tradicional, mas retomam e radicalizam normas, ritos e interpretações das antigas tradições. Sentem-se interpelados às mudanças devido às novas condições da sociedade e da cultura moderna. 

Há também movimentos de origem oriental, que acentuam a experiência religiosa com base no hinduísmo ou no budismo. Nas grandes cidades, oferecem alternativa de reação à cultura e à religião do Ocidente, racionais, pragmáticas e pouco holísticas. Nesse contexto ressurgem vertentes da gnose, do ocultismo e do esoterismo. 

Existem, ainda, movimentos que prometem desenvolver potencialidades humanas desconhecidas. Associam ao dado religioso recursos e técnicas corporais e empregam noções pouco profundas de Psicologia, Física e Astronomia para explicar práticas e crenças. Refletem sobre dimensões cósmicas e ecológicas das religiões e formam um complexo sincretismo. 

Por fim, há movimentos que surgem ao redor de um líder dotado de dons e carismas pessoais capazes de persuadir, os seguidores o têm como inspiração e norma de conduta. 

Relação com a sociedade

Os novos movimentos religiosos são rejeitados e criticados porque condenam valores e comportamentos e evocam um mundo menos materialista. Outros assimilam as novas tecnologias e adaptam-se às necessidades e esperanças das pessoas. Finalmente, há movimentos que não se preocupam com a sociedade e sim com o indivíduo. Não fogem da sociedade, mas enfatizam a libertação do ego em vista do bem-estar e da felicidade individual. 

Não há entre os novos movimentos engajamento ecumênico. Muitos se fortalecem justamente no afastamento das tradições religiosas históricas e outros pensam de forma exclusiva a relação com Deus. 

Poucos entram em iniciativas comuns de Igrejas e religiões na promoção da paz, da ecologia e da justiça. 

Quando surgiram

No Brasil, a urbanização dos anos 1960 trouxe isolamento e a fragmentação e os movimentos religiosos favoreceram a integração social às novas populações urbanas. Permitiram ao povo reorganizar a vida social, dar sentido ao peso da vida cotidiana e alimentar a esperança.  

A partir de 1980, surgiram movimentos neopentecostais, enfatizando que a causa dos males é o demônio e a necessidade de se libertar as pessoas. Passaram a atrair pessoas de níveis sociais mais elevados, à procura de ritos e práticas religiosas capazes de ajudar na reestruturação da personalidade. Nessa perspectiva, difundiu-se a idéia de que o objetivo da procura de Deus é a felicidade neste mundo. 

A cultura de massa, atualmente, tende a ajustar a mensagem dos movimentos às novas exigências religiosas. No Brasil, movimentos compraram jornais e redes de TV e de rádio e usaram a internet, bem como as novas tecnologias, para expandir sua mensagem. O enriquecimento de alguns grupos foi surpreendente. A intensa coleta de ofertas baseou-se na idéia de que a pessoa se liberta do diabo mediante desprendimento financeiro em favor do altar. Há um contrato de troca de favores: o fiel dá o dízimo para receber inúmeras bênçãos que garantirão seu bem-estar. 

Critérios, com urgência!
 
A sala de aula é espaço de acolhida e respeito, porém, é necessário ter critérios claros para um conhecimento esclarecedor e significativo na vida dos alunos. É indispensável saber que os novos movimentos religiosos tendem a reduzir a religião à simples procura de realização humana. Fala-se de Deus, mas se deseja satisfazer necessidades vitais. 

A linguagem sobre o sagrado permanece na imanência. Por isso, há críticas até para a denominação: “Novos movimentos religiosos”, pois eles têm pouco de religião. Para alguns teóricos, esses grupos decompõem a religião na mágica, ou numa espécie de novo humanismo. Se considerarmos religião, os novos movimentos devem ser vistos como terapia para os processos de violência moderna. Não combatem nem transformam a realidade, mas oferecem paz e segurança para as vítimas do mundo desumanizador. 

No eixo das teologias, pode-se mostrar aos alunos que os novos movimentos religiosos proporcionam uma nova leitura da religião ante o Transcendente. Diante da fragilidade e dos limites humanos, é preciso propor a relação com o sagrado capaz de organizar a vida, dar-lhe sentido, oferecer responsabilidade e participação e abrir esperanças de futuro, à luz da transcendência. 

O desafio dos novos grupos às Tradições Religiosas é o testemunho de que o relacionamento com Deus leva para muito além do individualismo e da necessidade imediata.
* Doutor e padre Leomar Brustolin, professor de Teologia e coordenador do curso de Pós-graduação em Ensino Religioso da PUC-RS – Porto Alegre (RS).


Conheça mais

MARTELLI, Stefano. A religião na sociedade pós-moderna. São Paulo: Editora Paulinas, 1995. 496 p. (Coleção Sociologia Atual, cód. 08449-1).
Um estudo sociológico sobre o fenômeno religioso na sociedade pós-moderna.  

CATALAN, Jean-François. O homem e sua religião, enfoque psicológico. São Paulo: Editora Paulinas, 1999. 160 p. (Coleção Atualidade em Diálogo, cód. 9178-2).
A partir de uma sociedade secularizada, a obra aborda o fenômeno religioso sob o ponto de vista da Psicologia. 

BONFATTI, Paulo. A expressão popular do sagrado: uma análise psico-antropológica da Igreja Universal do Reino de Deus. São Paulo: Editora Paulinas, 2000. 192 p. (Coleção Religião e Cultura, cód. 09794-2).
Estudo da crença, da cultura e do psiquismo do povo brasileiro e análise do fenômeno do crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus.

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