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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A CRIAÇÃO DO MUNDO EM MITOS ASIÁTICOS

Mitos de Criação



Cem Textos de História Asiática



A Índia Antiga é uma civilização em que abundam os mitos de criação, talvez devido a sua extrema flexibilidade religiosa e à uma filosofia inteiramente dedicada aos temas metafísicos e teológicos. Para uma mentalidade monoteísta, é difícil compreender como uma mesma cultura – e por conseguinte, o que entendemos ser um “mesmo sistema religioso”, o hinduísmo -, consegue aceitar e conviver com esta multiplicidade de visões; mas nisso reside, exatamente, a riqueza da liberdade de pensar e de propor interpretações diferentes sobre os mesmos temas, questão fundamental que levou o pensamento ocidental a vários acidentes de percurso. Nesta primeira seção, portanto, veremos três mitos de criação presentes no documento mais antigo da civilização indiana, o Rig Veda. O hino de purusha parece se tratar da primeira fonte a buscar explicar e legitimar a separação das castas indianas; o hino a prajapati e a canção da criação se tratam, contudo, de especulações de origem teológica e filosófica sobre as origens. Lembremos que o Rig veda é um texto de origem ariana, ancestral, em que o futuro pensamento “hinduísta” ainda está em seu embrião. A conseqüência da evolução do pensamento indiano antigo aparece nos dois textos seguintes – uma visão cosmogônica do surgimento do universo, do shatapatha – brahmana, e uma introdução ao problema no Aitareya Upanishad. Ambos os textos fazem parte de um contexto cultural, situado entre os séculos -8 e -6 aec, em que os indianos repensam suas origens, sua cultura arianista e vêem surgir propostas alternativas como a do budismo e do jainismo. Uma discussão sobre o universo imperecível é proporcionada pelo texto budista do digha-nikaya, proporcionando um contraponto às visões tradicionais da índia hindu-védica. Quanto à China, sempre tão carente de mitos de criação, fornece-nos dois exemplos especulativos, baseados na teoria yin-yang, do surgimento do universo. O primeiro aprece no texto de laozi, o daodejing, e o segundo, no texto posterior, da época Han, o huainanzi. O terceiro exemplo, o mito de panku, só surgiria tardiamente, e é incluído aqui a título de demonstração – as informações de que dispomos apontam que este mito não foi divulgado, senão, depois do período Han como algo próprio da cultura chinesa.


1. O Purusha Sukta (Hino do Homem)




Mil cabeças tem Purusha, mil olhos, mil pés.
Por toda parte impregnando a terra ele enche um espaço com
dez dedos de largura.

Esse Purusha é tudo que até agora já foi e tudo que será,
o senhor da imortalidade que se torna maior ainda pelo alimento.
Tão poderosa é sua grandeza! Sim, maior do que isto é Purusha.
Todas as criaturas são uma quarta parte dele, três quartas partes são a vida eterna no céu.

Com três quartos Purusha subiu; um quarto dele novamente estava aqui.
Daí saiu para todos os lados por sobre o que come e o que não come.

Dele nasceu Viraj (a); e novamente de Viraj nasceu Purusha.
Assim que nasceu, espalhou-se para oriente e ocidente sobre a terra.

Quando os deuses prepararam o Sacrifício com Purusha como
sua oferenda,
Seu óleo foi a primavera; a dádiva santa foi o outono; o verão
foi a madeira.

Eles embalsamaram como vitima sobre a grama o Purusha nascido no tempo mais antigo.
Com ele as deidades e todos os Sadhyas e Rishis (b) fizeram sacrifício.

Desse grande Sacrifício geral a gordura que gotejava foi colhida.
Ele formou as criaturas do ar, os animais selvagens e domesticados.

Daquele grande Sacrifício geral Rics (c) e hinos-Sama (d) nasceram;
Daí foram produzidos encantamentos e sortilégios; os Yajus (e)
surgiram disso.

Dele nasceram os cavalos e todo o gado com duas fileiras de dentes;
Dele se reuniu o gado vacum, dele nasceram cabras e ovelhas.

Quando dividiram Purusha, quantos pedaços fizeram?
A que chamam sua boca, seus braços? A que chamam suas coxas e pés?

O Brâmane (f) foi sua boca, de ambos os seus braços foi feito o
Rajanya (xátria). Suas coxas tornaram-se o vaixá, de seus pés o sudra foi produzido.

A Lua foi engendrada de sua mente, e de seu olho o Sol nasceu;
Indra e Agni nasceram de sua boca, e Vayu de seu alento.
De seu umbigo veio a atmosfera; o céu foi modelado de sua cabeça;
A terra de seus pés, e de suas orelhas as regiões. Assim eles
formaram os mundos.

Sete bastões de luta tinha ele, três vezes sete camadas de combustível foram preparadas,
Quando os deuses, oferecendo o sacrifício, manietaram sua vítima, Purusha.

Os deuses, sacrificando, sacrificaram a vítima; estes foram os
primeiros sacramentos.
Os poderosos chegaram às alturas do céu, lá onde os Sadhjas,
deuses antigos, estão morando.(1)

a) Contrapartida feminina do principio masculino, Purusha.
b) santos e profetas de tempos antigos.
c) Estrofes do Rig-veda.
d) Estrofe do sama-veda.
e) Fórmulas rituais do Yajur-veda.
f) As quatro classes sociais.


2. A Prajapati




No início surgiu Hiranyagarbha, (a) nascido senhor único de todos
os seres criados.
Ele fixou e sustenta esta terra e céu. Que deus adoraremos
com nossa oblação?

Proporcionador de alento vital, de força e vigor, aquele cujos
mandamentos todos os deuses aceitam:
O senhor da morte, cuja sombra é a vida imortal. Que deus
adoraremos com nossa oblação?

Aquele que por sua grandeza tomou-se senhor único de todo
o mundo móvel que respira e dorme:
Aquele que é senhor dos homens e senhor do gado. Que deus
adoraremos com nossa oblação?

Suas, por seu poder, são estas montanhas cobertas de neve, e
[os homens chamam o mar e Rasa (b) sua posse:
Seus braços são estes, suas são estas regiões celestiais. Que deus
adoraremos com nossa oblação?

Por ele, os céus são fortes e a terra segura, por ele o reino da
luz e a arcada do céu são sustentados;
Por ele as regiões na atmosfera foram medidas. Que deus adoraremos com nossa oblação?

Para ele, apoiados por sua ajuda, dois exércitos em batalha
olham com tremor no espírito,
Quando sobre eles o sol brilha. Que deus adoraremos com nossa oblação?

Na época em que as águas poderosas vieram,
contendo o germe universal, produzindo Agni,
Daí passou a existir o espírito dos deuses.
Que deus adoraremos com nossa oblação?

Em seu poder, ele examinou as enchentes que continham
força produtiva e geravam a adoração.
Ele é o deus dos deuses e ninguém mais do que ele. Que deus
adoraremos com nossa oblação?

Que nunca possa ele nos ferir, ele que é o criador da terra, nem
ele cujas leis são certas, o criador dos céus,
Ele que trouxe as grandes e luminosas águas.
Que deus adoraremos com nossa oblação?

Prajapati! Só tu compreendes todas essas coisas criadas, e ninguém mais senão tu.
Atende o desejo de nossos corações quando te invocamos -
que possamos ter muita riqueza em nosso poder.

a) Germe dourada, nome dado ao deus Brama.
b) Nome de um rio mítico.


3. A Canção da Criação




Então não existia o não-existente, nem o existente - não havia
reino do ar, nem céu além dele.
o que encobria, e onde? E o que dava abrigo? Existia água
ali, urra profundidade insondável de água?

Não existia então a morte, nem coisa alguma imortal - não
havia sinal, o divisor do dia e da noite.
Aquela coisa única, sem alento, respirou por sua própria natureza –
a não ser ela, não existia coisa alguma.

Existia treva; de começo oculto na treva, esse Tudo era caos
indiscriminado.
E tudo quanto existia então era vazio e sem forma –
pelo grande poder do calor nasceu aquela unidade.
Daí em diante surgiu o desejo no início, Desejo, a semente e
germes primevos do espírito.
Sábios que buscavam com o pensamento e seus corações
descobriram o parentesco do existente no não-existente.

Transversalmente sua linha de separação se estendeu - o que
estava acima, então, e abaixo?
Existiam reprodutores, forças poderosas,
ação livre aqui e energia acima, além.

Quem realmente sabe e quem pode declarar, de onde nasceu
e de onde veio essa criação?
Os deuses vieram depois da produção deste mundo. Quem sabe,
portanto, de onde ele veio pela primeira vez?

Ele, a primeira origem desta criação, tenha formado a mesma
toda ou não a tenha formado,
Cujo olho controla este mundo no céu mais alto, ele realmente
sabe, ou talvez não saiba.


4. Cosmogonia no Shatapatha - Brahmana




Na verdade, de inicio este universo era água, nada mais que um mar de água. As águas desejaram: "Como podemos reproduzir?” Elas se esforçaram e praticaram devoções fervorosas, e quando se estavam aquecendo foi produzido um ovo dourado. O ano, na verdade, não estava então em existência - esse ovo dourado flutuou durante o espaço de um ano. No período de um ano um homem, este Prajapati, a foi produzido dali, e por isso uma mulher, uma vaca ou uma égua gera dentro do espaço de um ano, pois Prajapati nasceu em um ano. Ele rompeu o ovo dourado. Não existia então, na verdade, qualquer lugar de descanso; apenas esse ovo dourado, trazendo-o, flutuava durante todo o espaço e um ano.
No final de um ano, ele tentou falar. Disse "bhuhr", palavra que se tomou esta terra; - "bhuvar", que se tomou o ar; - “svar", que se tomou o céu além. Por isso uma criança tenta falar ao fim de um ano, pois ao fim de um ano Prajapati tentou falar. Quando falava ela primeira vez, Prajapati dizia palavras de uma sílaba e de duas sílabas; por isso uma criança, quando fala pela primeira vez, diz palavras de uma e duas sílabas. Essas três palavras consistem em cinco sílabas e ele as tomou as cinco estações. Ao final do primeiro ano, Prajapati subiu para estar sobre essas palavras assim produzidas; por isso uma criança tenta estar de pé ao fim de um ano, pois ao um de um ano Prajapati ficou de pé.Ele nasceu com uma vida de mil anos; assim como alguém poderia ver a distância a costa em frente, assim ele olhou a costa a frente de sua própria vida,

Desejando ter progênie, continuou a cantar louvores e a trabalhar.
Estabeleceu o poder de reprodução em seu próprio eu. Pelo alento de sua boca criou os deuses - os deuses foram criados ao entrar no céu; e esta é a divindade dos deuses, a que tenham sido criados ao entrar no céu. Tendo-os criado houve, por assim dizer, dia para ele e esta é também a divindade dos deuses, a que, depois de criá-los, houve, por assim dizer, dia para ele.

E pelo alento ou respiração para baixo, ele criou os Asuras!- que foram criados entrando nesta terra. Tendo-os criado houve, por assim dizer, treva para ele. Agora que a luz do dia, por assim dizer, existia para ele, ao criar os deuses, isso ele fez o dia; e a treva, por assim dizer, que havia para ele, ao criar os Asuras, disso ele fez a noite - eles são esses dois, o dia e a noite.

a) "Senhor das criaturas", o deus supremo a vir.
b) Uma classe de demônios, oponentes dos deuses.


5. Aitaryea Upanishad 






ANTES DA CRIAÇÃO, tudo O que existia era o Eu, somente o Eu. Nada mais havia. Então o Eu pensou: "Criarei os mundos."
Ele criou os mundos: Ambhas, o mundo mais elevado, que está acima do céu e é sustentado por ele; Marichi, o céu; Mara, o mundo mortal, a terra; e Apa, o mundo abaixo da terra.
Ele pensou: "Eis os mundos. Enviarei agora os seus guardiões." Enviou então os guardiões.
Ele pensou: "Eis os mundos e seus guardiões. Enviarei alimento para os guardiões." Então enviou alimento para eles.
Ele pensou: “Como poderão existir guardiões sem que eu tome parte neles?”.
"Se, sem mim, a palavra é pronunciada, o alento é absorvido, os olhos vêem, o ouvido ouve, a pele sente, a mente pensa, os órgãos sexuais procriam, então o que sou eu?"
Ele pensou: "Penetrarei nos guardiões." E então, abrindo o centro dos seus crânios, entrou. A porta por onde ele entrou é chamada de porta da bem-aventurança.
Sendo o Eu desconhecido, todos os três estados da alma são apenas sonho: vigília, sonho e sono sem sonhos. Em cada um deles habita o Eu: o olho é o local em que habita quando estamos acordados, a mente é o local em que habita enquanto sonhamos, o lótus do coração é o local em que habita quando dormimos o sono sem sonhos.
Após penetrar nos guardiões, ele se identificou com eles. Tornou-se muitos seres individuais. Assim, conseqüentemente, se um indivíduo acorda do seu tríplice sonho de vigília, sonho e sono sem sonhos, vê apenas o Eu. Ele vê o Eu morando no lótus do seu coração como Brahman, onipresente, e declara: "Conheço Brahman!”
Quem é esse Eu que desejamos venerar? De que natureza é esse Eu? É ele o eu através do qual vemos a forma, ouvimos o som, cheiramos o odor, falamos as palavras e provamos o doce ou o amargo?
É ele o coração e a mente através do qual percebemos, comandamos, discriminamos, conhecemos, pensamos, recordamos, queremos, sentimos, desejamos, respiramos, amamos e executamos outros atos semelhantes?
Não, esses são apenas adjuntos do Eu, que é consciência pura, que é Brahman. E esse Eu, que é consciência pura, é Brahman. Ele é Deus, todos os deuses; os cinco elementos - terra, ar, fogo, água, éter; todos os seres, grandes ou pequenos, nascidos de ovos, nascidos do útero, nascidos do calor, nascidos do solo; cavalos, vacas, homens, elefantes, pássaros; tudo o que respira, os seres que caminham e os seres que não caminham. A realidade que está por trás de todos eles é Brahman, que é consciência pura.
Todos esses, enquanto vivem, e depois que cessam de viver, existem nele.
O sábio Vamadeva, tendo percebido Brahman como consciência pura, partiu desta vida, subiu aos céus, realizou todos os seus desejos, e alcançou a imortalidade.


6. A Perenidade da criação na Visão Budista, no Diga Nikaya



Há, ó monges, eremitas e brâmanes que são em parte eternalistas, em parte não-eternalistas. Eles assentam em princípio por quatro razões que o eu e o mundo são em parte eternos, em parte não-eternos. Quais são os motivos? Ó monges, se produz um estado em que, a um momento dado após um longo lapso de tempo, este mundo está em involução. Este mundo estando em involução, os seres na sua maioria tornam-se Radiantes. Tornam-se compostos de espírito, gozam do êxtase, lúcido quanto ao eu, circulando no céu, permanecendo na glória; eles duram durante uma longa, longa existência. Ora, monges, produz-se um estado em que, a um dado momento, após um longo lapso de tempo, este mundo está em evolução. Este mundo estando em evolução, vem a aparecer a morada vazia de um Brahma. Então um ser, seja que a duração de sua vida esteja esgotada seja que seu mérito esteja esgotado tendo morrido no grupo dos Radiantes, surge na morada vazia de um Brahma. Ele se toma composto de espírito, goza do êxtase, lúcido quanto ao eu, circulando no céu, permanecendo na glória, ele dura durante uma longa, longa existência. Se eu estando perturbado, de aí permanecer na solidão, após uma longa existência, a falta de contentamento e a agitação nascem nele, e ele pensa: "Praza ao Céu que outros seres venham também a este estado". Então determinados seres também eles, seja porque a duração de sua vida está esgotada, seja porque seu mérito está esgotado, tendo morrido no grupo dos Radiantes surjam na morada de Brahma, na companhia deste ser. Estes são igualmente compostos de espíritos... etc. e duram durante uma longa existência. Em conseqüência, ó monges, vem ao ser que surgiu ali primeiro esta idéia: "Sou eu que um Brahma, um grande Brahmã, Vencedor, invencível, Aquele que tudo vê, que governa, Senhor, Fazedor, Criador, Chefe, Dispensador, Mestre, Pai de todos os seres que vieram a ser e virão. Estes seres são criados por mim. Qual é a causa disto? Primeiro me veio esta idéia: "Praza ao Céu que outros seres venham a este estado". E tal era minha resolução que estes seres vieram a este estado. E também aos seres que suspiram mais tarde veio esta idéia: "este Brahmã venerado é um grande Brahmã... Pai de todos os seres que vieram a ser e virão. Nós fomos criados por este Brahmã. Qual foi a causa disto? É que vemos que ele surgiu aqui primeiro e que nós surgimos depois dele". Mas pode suceder, ó monges, que um ser tendo morrido neste grupo, venha a este estado e abandone o lar, viver sem lar. Tendo feito assim, pode suceder que pelo resultado de seu ardor, por um resultado de seu esforço, por um resultado de sua aplicação, por um resultado de sua sinceridade, como resultado de seu trabalho mental correto, ele atinja a uma contemplação mental tal que, seu espírito estando em contemplação, ele se possa lembrar desta habitação anterior: ele não se lembra de nenhuma outra anterior a essa. Ele diz: O Brahmã venerado que é um grande Brahmã, Vencedor, invencível etc... Pai de todos os seres que vieram e virão a ser, é por este Brahmã venerado que fomos criados. Ele é permanente, estável, eterno, não sujeito à mudança, igual ao eterno pois durará como ele. Mas aqueles dentre nós que foram criados por estes Brahmã, tendo chegado a este estado, são impermanentes, instáveis, de curta vida, sujeitos à morte. É a primeira consideração pela qual alguns eremitas e brâmanes assentam em princípio que o eu e o mundo são em parte eterno, em parte não-eternos. Em segundo lugar, ó monges, há devas que são chamados "Corrompidos pelo prazer”. Durante um tempo prodigiosamente longo eles vivem inteiramente para as coisas do riso, do prazer do deleite; por isso sua memória é confusa, e como sua memória é confusa estes devas morrem neste grupo. Mas pode suceder, ó monges, que tendo morrido neste grupo, um ser vem a este estado e abandona o lar para viver sem lar. Tendo feito assim. .. (etc. como acima). .. ele não se lembra de nenhuma habitação anterior a essa. Ele pensa: "Os dignos devas, que não estão corrompidos pelo prazer, não viveram durante um tempo prodigiosamente longo inteiramente para as coisas do riso, do prazer, do deleite; assim sua memória não é confusa, e sua memória, não sendo confusa, estes devas não morrem neste grupo. Eles são permanentes, estáveis, ternos, não sujeitos à mudança; eles são semelhantes ao eterno, pois durarão como ele. Mas aqueles dentre nós que viveram inteiramente para as coisas do riso, do prazer, do deleite durante um tempo prodigiosamente longo, têm a memória confusa: nossa memória sendo confusa, nós morreremos neste grupo e chegaremos a este estado. Nós somos impermanentes, instáveis, de curta vida, sujeitos, à morte”. É a segunda consideração pela qual alguns eremitas e brâmanes assentam em princípio que o eu e o mundo são em parte eternos, em parte não-eternos. Em terceiro lugar, ó monges, há devas que se chamam "Corrompidos em espírito". Durante um tempo prodigiosamente longo, eles são considerados e julgados entre eles de uma maneira invejosa. Como conseqüência disto seus espíritos são maculados uns em relação: aos outros, e em conseqüência seu corpo é cansado, seu espírito é cansado. Eles morrem neste grupo. Mas pode suceder, ó monges que tendo morrido neste grupo, um ser vem neste estado, e abandona o lar para viver sem lar... (como acima); ele não se lembra de nenhuma habitação anterior a essa. Ele diz: "Os dignos devas que não são corrompidos em espírito não são considerados e julgados entre si de modo invejoso durante um tempo prodigiosamente longo. Assim seus espíritos não são maculados uns em relação aos outros, seu corpo e seu espírito não estão cansados. Estes devas não morrem neste grupo. Eles são permanentes... (etc.), eles durarão. Nós que somos Corrompidos em espírito, que somos considerados e julgados entre nós de modo invejoso durante um tempo prodigiosamente longo, nós cujo corpo e espírito estão cansados, nós que, tendo morrido neste grupo, chegamos a este estado; nós somos impermanentes, instáveis, de vida curta, sujeitos à morte." É a terceira consideração pela qual alguns eremitas e brâmanes assentam em princípio que o eu e o mundo são em parte eternos, em parte não-eternos. Em quarto lugar, ó monges, um eremita ou brâmane raciocina e estuda. De acordo com um sistema por ele inventado, elaborado sobre o raciocínio, baseado sobre o estudo, ele fala da seguinte maneira: "Tudo o que se pode chamar olho, orelha, nariz, língua, corpo, esse eu é impermanente, instável não eterno, sujeito à mudança. Mas o que chama espírito, pensamento ou consciência este eu é permanente, estável, não sujeito à mudança; semelhante ao eterno, pois como ele durará." É a quarta consideração pela qual alguns eremitas e brâmanes que são em parte eternalistas, em parte não-eternalistas, assentam em princípio que o eu e o mundo são em parte eternos, em parte não-eternos. Disto, ó monges, o Descobridor da Verdade tem a presciência: Estas opiniões especulativas, sustentadas desta maneira, afirmadas deste modo, terminarão por levar a este ou àquele destino, a este ou àquele estado futuro. Disso o Descobridor da Verdade tem a presciência, e tem a presciência de outras coisas ainda. Mas mesmo tendo esta presciência ele nela não insiste. Como ele não insiste, o nirvana se encontra nele, conhecido de si mesmo; conhecendo tais como são verdadeiramente a origem e o desaparecimento das sensações, sua doçura; seu perigo, e o modo de deles se evadir, o Descobridor da Verdade, ó monges, é libertado sem que subsista nele um resíduo qualquer [levando a outra existência].


7. O mito chinês de Panku




Segundo a tradição, antes da separação do céu e da terra, o universo assemelhava-se a um ovo gigantesco. Pan-Ku crescia em seu interior. Após dezoito mil anos, subitamente despertou e abrindo os olhos não se apercebeu de coisa alguma em torno de si. Atordoado tomou de um machado e girando-o com grande ímpeto, conseguiu quebrar a casca do ovo num enorme estrondo. Então a parte superior elevou-se aos poucos formando o céu. A parte inferior lentamente desceu, formando a terra. Quanto a Pan-Ku, este assumiu sua forma: possuía cabeça de dragão e corpo de cobra. Sua respiração era constituída pelo vento, a chuva e o trovão. Quando abria os olhos se fazia luz. Quando os fechava, só o escuro.
Pan-Ku, para impedir que se unissem novamente as partes ora separadas, exteriorizou todo o seu poder, fixando-se entre o céu e a terra como eixo. O céu subia diariamente dez pés. O chão, já estabelecido, avolumava-se dezoito mil pés por dia. Quanto ao corpo de Pan-Ku, este se desenvolvia no mesmo ritmo.

E assim se passaram outros dezoito mil anos. Pan-Ku continuava a desenvolver-se, tão forte e sólido, que sustentava o céu. Contudo, chegado o momento em que estando firmes o céu e a terra, entendeu não ser mais necessária a sua permanência na posição de eixo e assim deitou-se para morrer. E se metamorfoseou. Magicamente sua respiração se transformou no vento e nas nuvens e sua voz no trovão. De seu olho esquerdo nasce o sol. De seu olho direito surge a lua. Mãos e pés criam os quatro pontos cardeais e as grandes montanhas. De seu sangue, o milagre dos rios e dos nervos os caminhos naturais. De sua carne a terra fértil. De seus cabelos e barba criam-se as estrelas. De sua pele e pêlos brotam árvores e outros vegetais. De seus dentes e ossos eclodem as rochas e pedras preciosas, as pérolas e o jade. E de seu suor, a fonte do orvalho e da chuva. Os homens, numa atitude de profunda reverência e respeito, fizeram erguer um grande túmulo de 300 milhas de comprimento para todo o sempre cultuar o seu espírito.


8. Cosmologia daoista em Laozi





O Tao gera o um
o um gera o dois
o dois gera o três
o três gera as dez mil coisas

Todos os seres têm o Yin e o Yang
Fundido suas energias para a harmonia
Ninguém quer estar só ou desgostoso
Mas é assim que os reis se descrevem

Pode-se perder ganhando
E ganhar perdendo-se
O que os outros ensinam, eu também ensino
Os fortes não podem dominar sua morte
Este é o pai de todos os ensinamentos.


9. A cosmologia daoista do Huananzi





As essências entrelaçadas do Céu e da Terra produziram o Yin e Yang
As essências exaladas por Yin e Yang produziram as quatro estações
As essências desagregadas de Yin e Yang criaram todas as coisas
O qi fervente do yang acumulado produz o fogo
O sol é a essência do qi fervente
O qi gelado do yin acumulado produz a água
A lua é a essência do qi aquoso
O qi advindo das essências de sol e da lua produziram as estrelas e planetas
Ao céu pertencem o sol, a lua planetas e estrelas
A terra pertencem a água, as inundações, o povo e o solo

[...]

O dao do céu é circular
O dao da terra é quadrado
O quadrado governa o obscuro
O circular governa o brilhante
O brilhante emite qi e por esta razão
O fogo é o brilho externo do sol
O obscuro absorve qi, e por esta razão
A água é a luminosidade interna da lua
O sol preside o yang, por isso
Na primavera e no verão os animais lutam
No solstício do verão os cervos perdem seus chifres
A lua preside o yin, por isso
Quando a lua mingua, os peixes enlouquecem
Quando a lua morre, caranguejos ressecam
O fogo vai pra cima
A água vai pra baixo
Assim é também
O vôo dos pássaros, pra cima
O nado dos peixes, pra baixo
As coisas que pertencem a uma mesma classe movem-se simultaneamente
A raiz e o tal respondem um pelo outro
Portanto
Quando o espelho candente (=lente) vê o sol
Incendeia a erva e produz o fogo
Quando o espelho quadrado (=espelho) vê a lua
Umedece e produz água (=orvalho)

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